quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O Leão e o Dragão


Este conto é uma ficção ambientada no mundo fantástico de Rokugan, uma ambientação oriental do RPG (Role Playing Game)- Legend Of The Five Rings, sistema onde se passam as aventuras do meu personagem Matsu Mototsuna (agora Matsu Kageyu). Estes contos são em parte uma adaptação literária dos acontecimentos do jogo, em parte criação totalmente minha, com o intuito de dar mais sabor ao jogo.
Os contos de Rokugan falam principalmente sobre as guerras e conflitos que dão forma ao mundo dos samurais, são histórias de bravura e grandes glórias, ambientadas em um mundo fantástico repleto de magia, deuses e criaturas estranhas.
No final do texto, existe um glossário organizado por ordem de ocorrência no conto, se algum termo de significado desconhecido não constar lá me escreva, pois terei prazer de esclarecer a duvida.
Espero que se divirtam, boa leitura.

Conto 01- O Leão e o Dragão (Junho, 2008)

Era uma manhã fria de outono, os doces aromas de castanhas e arvores resinosas preenchendo o ar nas terras altas e rochosas do território dos dragões, o silencio parecia sobrenatural, quebrado apenas por um esporádico trinar de alguma ave exótica ou o estalar de algum galho no alto, rangendo perante a força do vento das montanhas. Mototsuna se recostou no tronco de um grande cedro, arfando e atordoado, apertando com a mão esquerda o local onde a flecha havia penetrado fundo no seu flanco, tendo apenas resvalado na borda da placa peitoral antes de fincar na brecha que permitia o movimento do braço da espada.
A roupa estava empapada com o sangue que escorria em profusão por baixo das placas douradas da bela armadura Akodo que ele vestia. Tentou quebrar a haste escorregadia, que apenas envergou, causando uma dor tão forte que a visão escureceu, a respiração ficando cada vez mais áspera e difícil, mas era impossível dizer se a flecha era a única culpada, pois nunca parecia haver ar o suficiente naqueles picos quando surgia a necessidade de lutar ou correr.
Havia sido rápido demais e Mototsuna não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Eles tomaram todos os cuidados possíveis e mesmo assim caíram na emboscada; a flecha veio voando do nada, e não foi a única, de modo que ele não fazia idéia da situação em que se encontravam seus companheiros. Quando ouviu o sibilar da seta e sentiu o baque surdo em seu tronco acompanhado pela feroz agulhada da dor, Mototsuna se atirou instintivamente atrás de uma grande rocha e antes mesmo que pudesse tomar conhecimento completo de seu ferimento viu com o canto do olho seus companheiros tombarem enquanto Ikeda Nakamuro gritava ordens frenéticas para o pelotão se reagrupar em formação defensiva.
No entanto era necessário um terreno mais aberto, plano e livre da vegetação mais espessa para que pudessem se reorganizar, e por alguns segundos mesmo os bravos e disciplinados Leões tiveram um rápido vislumbre do desespero e do pânico enquanto corriam e eram assediados pelos projéteis dos atacantes invisíveis.
Mototsuna sentiu tontura ao se levantar, suas mãos tremiam e ele suava frio, sentindo os primeiros efeitos do choque. Finalmente conseguiu clarear os pensamentos e o torpor da surpresa o deixou, abrindo espaço para a costumeira habilidade fria e pensamentos rápidos, esculpidos nas incontáveis horas de seu árduo treinamento.
Com um movimento brusco, arrancou a capa de palha que vinha servindo como camuflagem e proteção contra o vento implacável, e percebeu pasmo que a katana já estava em sua mão, não se recordava de tê-la sacado. Não escutava mais seus companheiros e amaldiçoou o clima daquelas terras. Se pelo menos a neblina não fosse tão densa!
Finalmente ouviu o grito que trouxe de volta o chão firme aos seus pés, Nakamuro gritava ordens de ataque à sua esquerda e Mototsuna soube que havia ficado entre o inimigo e seus camaradas. Saiu detrás da rocha com um rugido, espada levantada e sem saber o que encontraria. Viu com o canto do olho seus ashigaru sendo conduzidos em formação em direção ao inimigo, ao mesmo tempo que avistou três arqueiros à sua frente, confusos com o súbito contra-ataque e colocando freneticamente flechas nas cordas dos arcos.
O primeiro não teve tempo de armar o arco, desistiu na última hora e o largou, para sacar a katana. Em sua fúria Mototsuna fora divinamente rápido e sua espada cortou entre a aba de proteção para a nuca e pescoço do elmo e a couraça do arqueiro, que afrouxou como um saco vazio ao ser degolado. Antes mesmo do corpo começar a tombar Mototsuna o agarrou e levantou de modo que servisse de escudo até alcançar os outros dois arqueiros. O segundo arqueiro tentou acertá-lo em alguma parte exposta, mas a seta cravou-se no corpo do samurai morto. Mototsuna deixou cair seu escudo humano no exato momento que o segundo arqueiro desferia um forte golpe descendente com a katana, que havia sacado ao perceber que não havia tempo para disparam mais uma flecha. O samurai Matsu recebeu o golpe a partir da guarda baixa, defletindo a lâmina do adversário com as costas da sua katana, usando o movimento de erguer a espada para aparar o golpe ao mesmo tempo que preparava o contra-ataque. Sua navalha foi veloz e ele cortou a parte de dentro da coxa do arqueiro, uma região que a armadura não protege, cortando veias e músculos importantes antes que o oponente pudesse esboçar um segundo golpe. Não se incomodou em dar o golpe de misericórdia no samurai, que morreria sangrando em pouco tempo, e passou por ele sem diminuir o passo, derrubando-o com uma forte pancada de ombro, e correndo em direção ao terceiro e ultimo samurai arqueiro.
Ele estivera mirando e aguardando a ocasião correta para disparar sua seta, e só não a havia liberado ainda porque seu companheiro estava entre ele e o alvo. Por isso sua flecha voou com precisão direto para o peito de Mototsuna quando este veio correndo e gritando em sua direção. O samurai Matsu percebeu o momento do disparo, e em desespero tentou cortar a seta com sua espada, mas o tiro voou demasiado rápido para ele, e sua morte seria certa não fosse a resistência de sua preciosa armadura, que fez a flecha ricochetear para longe deixando uma mossa profunda no local onde ela atingiu a couraça de peito, arrancando um pedaço do belo laqueado dourado do arnês.
O arqueiro se mostrou um hábil espadachim quando largou seu arco e sacou a katana e wakizashi antes mesmo do arco atingir o chão. Mototsuna reparou o modo peculiar com que os samurais do clã dragão carregavam seu daisho, com uma espada presa de cada lado do corpo, com as lâminas voltadas para baixo, de modo que se pudesse sacar as duas ao mesmo tempo. Eram katanas diferentes das que normalmente se usava em outros clãs, tendo um cabo normalmente mais curto devido ao manejo com apenas uma mão e laminas de formato diferente, mais fluido e suave, com uma ponta mais aguçada e delgada, não apresentando o familiar formato geometrizado das laminas mais tradicionais. Eram decoradas de uma forma muito peculiar, com bainhas mais largas, firmemente atadas ao obi por dois passadores de metal fixados nas costas da bainha, para permitir o saque sem que fosse necessário segurá-la com uma Mão enquanto saca a katana com a outra.
O bushi Matsu golpeou lateralmente com sua katana assim que chegou perto o suficiente do samurai dragão, um golpe que fora aparado pela wakizashi do oponente que no mesmo instante desferiu um golpe com a espada maior em direção ao crânio de Mototsuna. No entanto o guerreiro já esperava esta reação, tendo desferido o golpe lateral como uma finta, e agarrou sua chance assim que o oponente caiu na armadilha. Com um rápido movimento curto ele virou a lâmina de sua katana para cima, apoiando as costas da espada na palma da mão esquerda, e enquanto se agachava recebeu o golpe descendente do inimigo num baque que fez tinir o metal e forçou seus braços para baixo por trinta centímetros. Isso também fora esperado, e Mototsuna impeliu sua lamina para cima, impulsionando o gume com a Mão que apoiava as costas da lâmina adicionando a força do quadril e das pernas enquanto se levantava bruscamente, cortando fundo a parte de dentro do antebraço que segurava a espada maior, exatamente no ponto que não havia armadura. A katana cortou através de veias, artérias e tendões, fazendo o oponente incrédulo largar sua arma mais longa. A katana ainda estava a meio caminho do solo quando mototsuna impeliu a sua lamina, em uma estocada que deslizou apoiada em sua mão esquerda, fazendo a ponta aguda de sua katana enterrar-se profundamente no rosto do samurai dragão.
Brutal e preciso. Este era o modo leão de lutar, golpes decisivos e rápidos nos pontos vulneráveis das armaduras, era justamente este tipo de ocasião que fazia Mototsuna agradecer aos deuses pelas horas de treinamento árduo que fizeram seu corpo memorizar os movimentos a um ponto em que ele não precisava pensar antes de reagir a um golpe, cortando ou furando os pontos desprotegidos do corpo de um oponente de armadura, visando sempre a parte interna dos braços e pernas, ou o pescoço, pois um pequeno corte ali faria o oponente sangrar até a morte, sendo que as principais veias e artérias passam exatamente por estas partes do corpo. Gastara horas estudando todos os tipos de armaduras de Rokugan, para conhecer seus pontos fracos, estudara profundamente todos os estilos de esgrima conhecidos a fim de explorar suas falhas, e aprendera contra-ataques e fintas para as mais diversas ocasiões, de modo que não importava o quão espessa fosse a armadura de um oponente, ele sempre faria sua lamina deslizar em alguma brecha para arrancar dali o sangue e a vida.
Os olhos do bushi dragão se reviraram e ele desmoronou ruidosamente, enquanto Mototsuna tentava respirar e ao mesmo tempo sondava a região a sua volta, tentando enxergar seus oponentes ou aliados. O ruído da batalha diminuía, e ele tentou livrar sua katana do crânio do oponente caído com um puxão, mas isso só fez a cabeça sacudir e cair de volta num movimento grotesco que enojou o leão. Ele teve de pisar no pescoço do inimigo e girar a lâmina para soltá-la com um estalo, enquanto dizia a si mesmo para nunca mais golpear um lugar tão duro, porque se houvesse mais um oponente ele teria de enfrentá-lo sem a arma. Sentiu-se mal por tratar o oponente morto daquele modo, mas não havia espaço para cortesia naquele momento.
Percebeu finalmente que aqueles que derrubara eram os únicos por perto e logo alcançou o restante de seus companheiros, que haviam rechaçado o grupo de dragões, tendo entretanto sofrido pesadas baixas nos primeiros momentos da escaramuça, e até mesmo Ikeda Nakamuro Havia sido duramente ferido. Uma flecha acertou seu nariz de raspão, perfurou o olho esquerdo e quebrou o osso, saindo pela lateral da órbita ocular. Seus homens já haviam retirado o projétil, mas era um ferimento feio de se ver, e ele apertava um trapo contra a ferida sangrenta de onde brotava um liquido viscoso que já fora um olho, misturado com sangue. Não demonstrava quase nada da dor lancinante que com certeza estava sentindo, e continuava gritando ordens para seus homens, em pé, orgulhoso diante de seus soldados. Apenas o suor abundante em seu rosto e as mãos tremulas traíam seus sofrimento, mas o vigor de sua coragem ajudou a encorajar os homens.
O sangue quente começou a esfriar e Mototsuna voltou a sentir os efeitos de seu ferimento. Respirar era uma tortura e ele percebeu que a flecha havia se partido durante o combate, mas não conseguiu sondar a ferida latejante para tentar encontrar a parte que ficou alojada em sua carne. Sabia que devia deixá-la ali para que o medico a retirasse, já vira muitos homens morrerem por causa do jorro de sangue que ocorria quando alguém tentava arrancar uma flecha ou lança enfiada profundamente no corpo.
Estava arfando e sentia-se terrivelmente tonto quando chegou até seu comandante, o semblante de Ikeda parecia embaçado e entrecortado por pontos negros e bolas de luz que caminhavam perante seus olhos. Havia perdido sangue demais, e travava uma luta silenciosa para manter-se agarrado à consciência.
- Senhor, quantos homens ainda temos? – Parou para tomar um fôlego a mais e se concentrou para forçar as palavras a saírem. – O inimigo foge colina abaixo, devemos persegui-los ou buscar reforços?
- Não mais que vinte e sete filho, parece que você está bastante ferido, acha que pode continuar?- Disse o Gunso, depois de uma olhada rápida com seu único olho no sangue que cobria toda a lateral do corpo de Mototsuna.
- Estou bem senhor- mentiu o samurai Matsu.- Quais são suas ordens?
- Dividam-se em dois grupos, um fica aqui protegendo os feridos e mortos, o resto, vem comigo até a liteira, precisamos pegá-los antes que atinjam o posto da estrada!
Rapidamente os guerreiros se dividiram conforme as instruções e sem perder tempo começaram a correr colina abaixo em meio à névoa espessa, para alcançar a liteira que os inimigos estavam protegendo.
- A mim garotos! É hora de cobrarmos o justo preço deste ultraje! Mostrem a esses cães do que é feito um leão! – Rugia Ikeda. Não era um grande discurso, com certeza, mas poucos teriam se saído melhor estando tão terrivelmente feridos como ele estava. Os ashigaru seguiram seu líder numa fúria avassaladora, envergonhados e vingativos pela injúria que haviam sofrido.
Mototsuna correu como um louco, a dor desapareceu quando o torpor invadiu seu corpo, sua audição foi sumindo aos poucos, não conseguia sentir o chão onde pisava, e os cantos de sua visão foram se estreitando em uma escuridão que afunilava, enquanto via seus companheiros correndo e gritando com as espadas erguidas, atacando a comitiva que carregava a liteira, que foi a ultima coisa que viu antes de mergulhar na escuridão.
***
Acordou assustado, a luz fazia a cabeça latejar, uma confusão de ruídos e vozes invadiu sua mente e ele sentia a dor no flanco como um ferro em brasa latejando. Sentia-se fraco e apenas a dor o fez perceber que ainda não estava no mundo dos mortos.
Os olhos se acostumaram lentamente com a claridade e ele se viu deitado em um tatami em uma grande tenda para feridos, com o emblema de seu exército. Ainda estava confuso, e não conseguia entender as palavras que se emaranhavam enquanto vozes conversavam ao seu redor. Tentou recordar os acontecimentos que o haviam deixaram naquele estado.
Lembrou-se de uma ronda rotineira nas montanhas perto do limiar do acampamento leão nas terras dos dragões, estava sob o comando do Gunso Nakamuro, um pequeno destacamento de cinqüenta homens com o objetivo simples de levantar informações sobre o relevo do local.
O que deveria ser um trabalho simples transformou-se em um desastre, quando um dos batedores reportou ao Gunso que tinha avistado uma comitiva dragão que protegia uma liteira, avançando em marcha rápida em direção à cidade fortificada. Eles avançaram cuidadosamente até o pico de uma colina cuja encosta servia de alicerce para a estrada longa e sinuosa pela qual a comitiva da liteira rumava apressadamente. Estava a trezentos metros de distancia e cerca de cento e cinqüenta metros de altura da estrada, em plena mata, quando a primeira flecha veio voando da névoa espessa. Não entendeu porque a comitiva tinha batedores nas matas adjacentes, mas não teve tempo para refletir sobre isso na ocasião, e finalmente conseguiu recordar cada detalhe da luta. Agora sentia-se sortudo por ainda estar respirando.
Reconheceu as vozes que conversavam perto, e com um esforço enorme levantou as pálpebras pesadas e viu seu Gunso passando o relatório da missão ao Taisa Matsu Shinia, que ouvia atento as palavras com uma expressão grave no rosto. Ikeda Nakamuro também estava em um leito, e parecia bastante abatido, esforçando-se para sentar dignamente enquanto se reportava ao superior. Mais tarde Mototsuna viria a saber que uma terrível febre atacou o Gunso apos ter sido ferido, e que ela perdurou por mais tempo que a ferida levou para cicatrizar, levando o homem aos portões do mundo dos mortos várias vezes.
- ...Shinia Sama, nós avançamos impelidos pela vergonha de não termos percebido o simples estratagema antes, e isso fez os homens lutarem como heróis. Matamos trinta e três na mata e quarenta e quatro na estrada. Pressionamos a guarda da liteira e os cercamos, matando sem parar, até que os últimos soldados vivos fizeram o inesperado: cortaram as barras de bambu que selavam a liteira e mataram o ocupante, tentei gritar aos homens que os poupassem para o interrogatório, mas ensandecidos como estavam eles os retalharam antes das palavras saírem de minha boca.
- De fato, um erro lamentável, mas o que está feito não pode ser mudado! E este ocupante da liteira? - Disse Matsu Shinia em tom grave.
- É aí que ficamos realmente confusos senhor! Esperaríamos um líder militar ou prisioneiro, mas o que encontramos foi, no mínimo inesperado: Uma criança! Um menino que carregava a insígnia do clã escorpião! Usava roupas de nobre e não estava amarrado nem apresentava sinais de maus tratos. Os homens enterraram a pobre criança mas suas vestes foram guardadas para a inspeção, se o senhor desejar poderá avaliar por si mesmo.
O taisa olhou fixamente para o vazio e pareceu afundar em pensamentos por um longo Período, a testa vincada de preocupação. Depois de um tempo pareceu despertado de um sonho e olhou diretamente nos olhos do gunso.
- Obrigado Nakamuro, me envergonho em admitir que a solução deste enigma está alem de meu poder de dedução, mas este caso não deve ser negligenciado! Reuniremos mais informações e descobriremos qual o envolvimento do clã escorpião nesta guerra, e que tipo de estratagema estão tramando os dragões!
O altivo líder levantou-se, prendeu a katana no obi e amarrou o chapéu de comandante sob o queixo. Olhou mais uma vez para Nakamuro e sua face se endureceu. Apontou o leque em sua direção e falou com uma autoridade esmagadora:
- Nakamuro! Uma cilada de amadores quase partiu a espinha de uma tropa leão! Isso é inaceitável! Estou muito desapontado!- Sua voz subiu de tom até quase se tornar um grito. – Isso não deve se repetir!
Nakamuro se curvou até a testa tocar o solo e gritou com gravidade sincera:

- Não irá se repetir senhor! Não tenho desculpas! A vergonha é toda minha! Ficarei feliz em tirar minha vida se o senhor desejar!
Matsu Shinia permaneceu em silêncio por um momento, observando o fiel comandante e por fim falou, a voz baixa e suave:
- Não Nakamuro san! Eu preciso de você. Os homens precisam de sua liderança. Não me vale de nada morto! Recupere-se rápido e terá a oportunidade de redimir a falha!
- Hay! Shinia Sama!
O Gunso não conseguiu falar mais nada, mas não havia necessidade de palavras, tudo o que importava havia sido dito e ele sabia que não falharia uma segunda vez.
Sem mais palavra o Taisa saiu da tenda em direção a luz do sol que ia alto no céu e Nakamuro pôde ouvir sua voz ao longe ordenando que lhe trouxessem o seu cavalo, então recostou a cabeça no tatami, parecendo arrasado, velho e cansado. Mototsuna percebeu o peso que o homem carregava nos ombros e ficou pensando o que havia na guerra daquilo que as lendas contavam. Esperava encontrar a gloria e a honra mas até agora só vira dor, morte e sofrimento. Lembrou das palavras de seu pai em sua ultima despedida e rezou em silencio para voltar a vê-lo um dia. Na ocasião a idéia da morte lhe parecia muito distante para ser tangível mas agora ela parecia assustadoramente real e ele percebeu o quanto ainda tinha a percorrer no caminho do guerreiro para recebê-la de braços abertos quando a hora viesse.
Estava olhando pensativo a marca entalhada pela flecha na sua armadura, que fora deixada ao seu lado junto com o daisho, quando uma moça que cuidava dos feridos se aproximou de seu leito. Ele percebeu que estava com muita sede e tentou chamá-la, mas a voz não veio, no lugar dela a escuridão chegou e o levou novamente a um sono perturbado e febril.




Glossário:
Leão, Garça, Caranguejo, Escorpião, Fênix, Unicórnio, Dragão e Mantis- Nomes dos clãs principais de Rokugan.
Mototsuna, Matsu- Personagem. Samurai do clã leão e Gunso da primeira legião Imperial de Rokugan.
Akodo- Família Importante do clã Leão, famosa entre outras coisas por suas excelentes armaduras de qualidade e beleza excepcionais.
Nakamuro, Ikeda- Personagem. Gunso da legião Leão, e comandante do pelotão de Mototsuna.
Katana- Sabre japonês. Renomado por sua beleza incrível e pela navalha soberba, é uma arma letal que pode ser empunhada com uma ou duas mãos, é o símbolo da classe samurai e era considerada a própria alma do guerreiro.
Ashigaru- Camponeses Guerreiros, por vezes recrutados a força, recebiam pouco treinamento e equipamentos.
Wakizashi- Espada curta que acompanhava a Katana, formando o Daisho. Era uma copia reduzida de sua Irma maior. Salvo raríssimas exceções não era utilizada em combate, representava a classe samurai e era a ferramenta utilizada no Seppuku, o suicídio ritual dos samurais.
Daisho- Conjunto de armas formado pela Katana e Wakizashi, só podia ser portado por um samurai, e por este motivo era um distintivo da classe guerreira.
Obi- Faixa de tecido larga e comprida, era enrolada na cintura para ajudar a fixar o daisho.
Bushi- Guerreiro. Termo genérico para descrever homens de armas. Por ser uma classe aristocrática, nem todo samurai era um bushi de fato.
Gunso- Posto de comando militar equivalente a sargento.
Taisa- Posto de comando militar equivalente a capitão.
Tatami- Esteira ou colchonete de palha utilizada como revestimento para o piso ou leito para dormir.
Matsu, Shinia- Taisa da legião Leão, e comandante do exercito onde Mototsuna serve.
San- Pronome de tratamento formal. Equivalente a Sr.
Hay!- Interjeição para afirmações enfáticas.
Sama- Pronome tratamento formal. Equivalente a Excelentíssimo.

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