
Este conto é uma ficção ambientada no mundo fantástico de Rokugan, uma ambientação oriental do RPG (Role Playing Game)- Legend Of The Five Rings, sistema onde se passam as aventuras do meu personagem Matsu Mototsuna (agora Matsu Kageyu). Estes contos são em parte uma adaptação literária dos acontecimentos do jogo, em parte criação totalmente minha, com o intuito de dar mais sabor ao jogo.
Os contos de Rokugan falam principalmente sobre as guerras e conflitos que dão forma ao mundo dos samurais, são histórias de bravura e grandes glórias, ambientadas em um mundo fantástico repleto de magia, deuses e criaturas estranhas.
No final do texto, existe um glossário organizado por ordem de ocorrência no conto, se algum termo de significado desconhecido não constar lá me escreva, pois terei prazer de esclarecer a duvida.
Espero que se divirtam, boa leitura.
Conto 02- Tsuno (agosto, 2008)
- KANI !!!!!PARA O CENTRO!!!- Berrava Kageyu, o rosto grudento de suor frio, pálido como um Perseguidor da Morte, agitando seu Tessen freneticamente com a mão direita, enquanto puxava as rédeas de seu feroz corcel, que patinhava e girava no lugar bufando, com os olhos brancos revirando em antecipação à violência que estava prestes a irromper como uma inundação.
Kageyu observou apreensivo a onda de bestas misteriosas que eles chamavam de Tsuno, arremeter com determinação sobrenatural colina acima em direção a sua linha de infantaria apavorada e prestes a se romper. Aguardava prendendo o fôlego a pequena tropa de samurais caranguejo que saia de suas linhas de retaguarda passando entre os homens em formação o mais rápido que podiam, mas a velocidade dos monstros era inacreditável e ele quase se desesperou totalmente. No entanto os veteranos endurecidos conheciam bem seu ofício e avançaram com uma tranqüilidade perturbadora, que contrastava com as expressões apavoradas dos valorosos guerreiros ao redor, e alcançaram a linha de frente no exato momento de receber a pavorosa carga do inimigo.
Os caranguejos mantiveram um silencio inexpressivo enquanto avançavam, mas no último instante seu poderoso grito de guerra se ergueu acima dos sons da batalha ao mesmo tempo em que os tetsubôs desceram, abafando o rugido com o som de carne e aço sendo esmagados.
- ALAS DIREITA E ESQUERDA, AVANÇAR!!! PREPAREM OS ARQUEIROS, QUERO UMA SARAIVADA CORTANDO A LINHA DE ATAQUE DESTAS BESTAS AGORA!!!- Kageyu bradava o mais forte que podia, tentando alçar longe sua pequena voz de menino, em pé nos estribos, tentando ver tudo ao mesmo tempo. O mempô balançava frouxo, pendurado abaixo do elmo. Ele o havia tirado porque não conseguia ver direito e sua voz ficava abafada com ele. A nova armadura também parecera excessivamente pesada, restritiva e quente a um momento atrás, mas tudo isso havia desaparecido magicamente de seus pensamentos assim que as bestas se lançaram inesperadamente sobre seus homens cansados.
Os endurecidos caranguejos ofegavam e trincavam os dentes, eficientes e incansáveis no seu sangrento trabalho. Haviam suportado a carga e agora começavam a pressionar de volta, e isso pareceu despertar os outros samurais de seu transe apavorado.
Em uma fração de segundo centenas de flechas zuniram acima das cabeças dos guerreiros ferozmente engajados, indo se cravar em corpos que estavam alem do alcance dos olhos de Kageyu. As alas se fecharam ao redor dos Tsuno como imensas mandíbulas forçando as feras ao desespero, finalmente.
-TODAS AS UNIDADES!!! ATAQUE TOTAL!!! VAMOS ESMAGAR ESTAS BESTAS MEUS IRMÃOS!!! – Gritou o Gunso Kagueyu com o pouco que havia sobrado de sua voz rouca. Ele vira o momento perfeito para destruir de uma vez o inimigo, e não iria perder a chance.
O nervosismo que o oprimira a pouco se foi, sua cabeça ficou leve e o tempo pareceu desacelerar. Desceu do cavalo e sacou sua Nodachi, Oniboshô, sentindo seu peso familiar enquanto seu sangue Matsu fervia, clareando seu olhar a medida que seu coração disparava loucamente. Correu em direção a um Tsuno extraordinariamente grande e cheio de cicatrizes, que se virou para recebê-lo. Ergueu sua grande nodachi e , sem se dar conta, sorriu.
***
- Ei! Passarinho! Aquele lá não é o seu primo não? – Disse Tenshin a Goro, tirando do olho esquerdo um punhado sangrento de algo que até um minuto atrás estava dentro da cabeça de um desafortunado Tsuno.
- Deuses! É o Kageyu san mesmo! Ele está cercado, se não chegarmos rápido ele certamente sucumbirá! – Venha Tenshin san, depressa!
Enquanto corriam os dois samurais notaram com o canto dos olhos que uma terceira pessoa havia se juntado a eles no resgate intrépido. Antes mesmo de notarem suas feições já sabiam de quem se tratava, pois portava as cores do escorpião.
Bayushi Isao. Nenhum deles confiava verdadeiramente nele, mas quem os culparia, afinal ele era um dos famigerados escorpiões. O mais estranho é que este em especial transparecia uma dignidade e honradez incomuns a um membro de seu clã, o que contribuía ainda mais para aumentar as suspeitas que recaíam sobre ele.
Minutos atrás ele estava parado observando o combate, paralisado, e muitos poderiam jurar que estava amedrontado. No entanto agora corria em direção ao perigo para salvar a vida de seu Gunso. De fato, no que diz respeito ao mistério ele era um perfeito escorpião.
Metros adiante, Kageyu brandia sua nodachi com uma ferocidade comum aos Berserkers Matsu, um verdadeiro leão acuado. Contra ele se erguiam seis oponentes, Tsunos grandes e poderosos. Em sua loucura da matança Kageyu se aprofundou demais nas linha inimigas, e acabou separado de seus homens e acossado pelo inimigo, que atacava com ódio renovado pela derrota iminente.
Goro cortou como um raio, enviando rapidamente seu tsuno ao seus ancestrais, se é que eles têm algum. Tenshin golpeou com a brutalidade trivial de um açougueiro, enquanto Kageyu, bastante ferido mas ainda tomado pelo vigor da fúria, cortava a vida de um terceiro monstro.
Isao fez o que pôde, estava embotado e confuso pelo terror da guerra, claramente se via que nunca havia estado em uma batalha propriamente dita, quanto mais assim, contra monstruosidades como aquelas, tão perto que podia sentir o hálito de seus oponentes.
Soldados veneram a bravura e desprezam a covardia, mas ele não seria recriminado por temer, não naquele dia, não daquela forma. Vencer o terror exige uma força de vontade descomunal e os homens respeitam isso. Existe cumplicidade entre os guerreiros, e ele havia se tornado um no exato momento que golpeou seu oponente, debatendo-se desesperadamente contra as garras do terror que tentavam imobilizá-lo.
Kageyu parecia confuso enquanto olhava os companheiros que vieram em seu auxilio, ficou perplexo quando olhou para trás e percebeu o quanto havia se afastado de suas fileiras e o quão perto da morte chegara. O escudo protetor do braço e ombro esquerdo pendia destroçado, os cordames de seda cortados e as placas de aço tortas, sangue pingava de sua mão. Havia mossas fundas em sua armadura, o belo laqueado dourado havia se soltado em muitos pontos e um talho profundo no ombro direito fendeu o aço e a carne.
O jovem Gunso então se deu conta de que precisava retomar rapidamente o comando, pois a unidade que viera em seu auxílio começara a ceder diante da resistência teimosa dos bestiais oponentes. Ordenou que se reagrupassem com o corpo principal das tropas, para organizar um derradeiro ataque esmagador. Os Tsunos não os confrontavam diretamente nunca, e aquilo estava começando a suplantar sua prudência. Ele queria o confronto decisivo, e iria fazer sua aposta.
Fora um serviço rápido. Avançaram, cortaram, esmagaram e morreram também. O inimigo resistiu bravamente até o fim, de modo que uma certa admiração pelas bestas surgiu no coração dos homens, apesar de não admitirem nem para si mesmos.
Finalmente a derradeira investida da primeira legião imperial subjugou a ferocidade dos Tsunos, que sofreram baixas mais severas do que nunca. O ataque fora perfeito, o inimigo foi desbaratado e os homens comemoraram ruidosamente. Kageyu contemplou orgulhoso seu homens, retribuindo cada aceno de cabeça ou sorriso. Assentiu ao companheiros mais antigos, que haviam lhe salvado a vida, transparecendo abertamente sua gratidão. Quando seus olhos encontraram os de Isao sua expressão mudou bruscamente, ele o encarou sério por alguns momentos e então finalmente fez uma reverencia, sem perder o contato com os olhos do escorpião.
Esta pequena preocupação logo se dissolveu em júbilo, pois ele era um vitorioso, um herói, estava vivo e comandava duzentos homens em uma legião imperial. Aqueles eram bons homens; seus homens. Tudo estava acontecendo rápido demais para que tivesse tempo de refletir e assimilar as reviravoltas em sua vida, mas as fortunas o haviam abençoado e ele sorveria cada gota daquilo. O sol de primavera brilhava, o mundo vibrava com vida nova. Kageyu lembrou-se subitamente de um pequeno detalhe e sorriu de cabeça baixa: era seu aniversário de quinze primaveras.
Ele era jovem, e o mundo era seu.
Glossário:
Leão, Garça, Caranguejo, Escorpião, Fênix, Unicórnio, Dragão e Mantis- Nomes dos clãs principais de Rokugan.
Kageyu, Matsu- Personagem. Samurai do clã leão e Gunso da primeira legião Imperial de Rokugan.
Perseguidor da Morte- Orig. “Deathseeker”, guerreiros condenados a morrer em combate, para encontrar um fim honrado. Lutam com os rostos pintados de branco.
Kani- Em Japonês “Caranguejo”, nome de um dos clãs maiores.
Tessen- Leque de comando militar, comumente de ferro.
Tsuno- Monstros horrendos, medindo 2m, muito fortes, inteligentes, ferozes e velozes. Oponentes verdadeiramente poderosos.
Tetsubô- Espécie de maça ou porrete de duas mãos, feito de madeira ou aço e guarnecido com cravos de ferro. Arma preferida do clã caranguejo.
Mempô- Máscara de feições aterrorizantes usada pelos samurais.
Gunso- Posto de comando militar equivalente a sargento, normalmente responsável pelo comando de 20 homens.
Berserker- Termo eslavo para designar os guerreiros enlouquecidos que lutavam até a morte, ignorando ferimentos e dor de forma sobrenatural. Segundo os relatos, agiam como cães raivosos, por vezes lutando nus, espumando pela boca, se auto-mutilando e mordendo as bordas dos escudos inimigos.
Nodachi- Espada de duas mãos samurai, uma versão agigantada da katana, normalmente medindo quase a altura total do guerreiro.
Oniboshô- Nome da espada nodachi de Kageyu.
Tenshin, Hida- Personagem. Samurai do clã caranguejo, Nikutai da primeira legião imperial.
Nikutai- Posto de oficial subalterno militar aproximadamente equivalente a cabo. Auxiliar direto do Gunso, deve cuidar da organização e prontidão da unidade, não comanda em combate.
Goro, Kakita- Personagem. Samurai do clã garça, Nikutai da primeira legião imperial.
San- Pronome de tratamento formal. Equivalente a Sr.
Bayushi, Isao- Personagem. Samurai do clã escorpião, Shoko Kambu de Akodo Kageyu.
Shoko Kambu- Auxiliar e mensageiro de oficial militar.
Um comentário:
Fantástico!
Descritivo sim, mas a riqueza de detalhes é totalmente necessária.
RPG faz isso com as crianças não? Todos aprendemos a escrever esperando que o Game Master tenha aprendido a ler... ahahaahha
Belíssimo!
Vou ler os outros agora...
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